Dietas restritivas e insatisfação corporal, qual a relação entre elas?

Por Danielle Fontes

A veneração corporal sempre permeou a sociedade. Embora o conceito estético tenha mudado ao longo do tempo, o corpo sempre foi associado a um perfil de beleza ideal. Hoje, a magreza é o modelo preponderante do belo. Há de se destacar que ser magro não está somente ligado à beleza, mas também a um conceito de “saúde”. Na associação feita entre beleza corporal, felicidade, amor e sucesso, as distorções de imagem e a insatisfação corporal vem crescendo nos consultórios e aumentando o sofrimento dos pacientes. A mídia de massa mostra ícones de perfeição e ideais de beleza quase inatingíveis e nos faz acreditar que alcançá-los nos trará realização.

O excesso de preocupação com corpos magros vem sendo disseminado tanto nas mídias sociais, quanto nas clínicas médicas e consultórios de nutrição. Em 1997, Bratman cunhou o termo “ortorexia nervosa”, que descreve o quadro de pessoas cujas dietas extremas – destinadas a razões de saúde – estão de fato levando à desnutrição e/ou comprometimento do funcionamento diário desses indivíduos. Também houve um intenso interesse da mídia em pessoas cuja dieta “saudável”, altamente restritiva, leva a uma alimentação desordenada.

Seguir uma dieta restritiva por longos períodos pode ter consequências prejudiciais à saúde, como: problemas sociais, alterações emocionais, deficiência de vitaminas e até mesmo desenvolvimento de um transtorno alimentar.  

Sabemos que existe uma relação entre a insatisfação corporal e o comportamento de risco para transtornos alimentares. Um grupo de 103 adolescentes com excesso de peso concluiu uma pesquisa avaliando: satisfação corporal, comportamentos de controle de peso, pensamentos e comportamentos relacionados à alimentação, importância atribuída à magreza, autoestima, raiva e sintomas de depressão e ansiedade, entre 2004 e 2006. Os dados demonstraram que maior satisfação corporal foi associada a menor probabilidade de se envolver em comportamentos não saudáveis de controle de peso.

Estudo brasileiro, com crianças e adolescentes entre 11 a 17 anos, demonstrou que a maioria dos meninos (76,9%, n= 609) e meninas (77,5%, n=573) estavam insatisfeitos com sua imagem corporal. O nível do índice de massa corporal (IMC) foi significativamente associado à insatisfação corporal tanto em meninos quanto em meninas, ou seja, quanto maior o IMC, maior a insatisfação corporal.

Esses dados nos mostram que a insatisfação corporal e a prática de dietas restritivas são fatores de risco para transtornos alimentares. Dessa forma, podemos lembrar que uma alimentação saudável pode, e deve, conter todos os grupos alimentares, inclusive no intuito de promover o emagrecimento. É fundamental que haja responsabilidade por parte do nutricionista, ao propor e acompanhar uma estratégia dedieta restritiva, e do paciente, que deve sempre buscar ajuda individualizada e profissional para cuidar de sua alimentação.

Lembrando que as dietas restritivas são aquelas que reduzem ou excluem totalmente determinado nutriente, como carboidratos, proteínas e/ou gorduras, ou restringem as calorias totais do dia (restrição calórica, jejum intermitente entre outras estratégias).

Referências bibliográficas

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