Estresse Emocional e Compulsão Alimentar

Danielle Fontes

A vida é estressante! A vida diária propõe um restabelecimento e manutenção de um equilíbrio dinâmico frente a mudanças. Como estamos experienciando na pandemia por Covid19.

O estresse pode ser definido como uma reação normal do organismo com componentes psicológicos, físicos, mentais e hormonais. Reação esta, por vezes, necessária para manter a nossa sobrevivência. O estresse pode estar relacionado a situações externas como: mudanças na rotina do trabalho, mudanças dentro do ambiente familiar ou social, ou mesmo a situações positivas como, por exemplo, o nascimento de um filho. Momentos estressantes, persistentes podem produzir alterações no sistema nervoso simpático e aumentar a produção de um hormônio conhecido como cortisol.

A resposta biológica individual ao estresse é guiada pela forma como os indivíduos vivenciam as experiências estressoras e variam de acordo com características pessoais produzindo diferentes reações em cada um, como por exemplo, aumentando o apetite.  

Para a maioria das pessoas, o estresse influencia a quantidade e os tipos de alimentos que comem. Cerca de 35-60% das pessoas relatam comer mais calorias totais quando estão sob estresse, enquanto aproximadamente 25 a 40% das pessoas relatam comer menos.

Evidências sugerem que o estresse altera o comportamento alimentar, redirecionando as escolhas alimentares para alimentos com maior palatabilidade e valor energético, especialmente aqueles ricos em açúcar e gordura.

Uma hipótese fisiológica para o aumento do consumo de alimentos durante um período de estresse pode envolver o aumento do cortisol, como já citamos, e de outros como a dopamina, a leptina e a insulina. Estes também atuam no nível central, estimulando o desejo por alimentos palatáveis. Por sua vez, alimentos ricos em gordura e em açúcar geram prazer e emoções positivas, aumentando o desejo por seu consumo e associando a lembrança de seu consumo com a sensação de recompensa.

Temos também um aspecto psicológico desse comer por estresse. Na psicanálise o comer tem ligação intrínseca e direta com o funcionamento emocional do indivíduo, desde o nascimento, dificultando assim a separação do aspecto fisiológico do psicológico no ato de comer. Segundo psicanalistas como Freud ou Melanie Klein, quando o ser humano nasce existe uma primeira angústia, a fome. Como essa sensação pode ser dolorosa e desintegradora, o recém-nascido não entende que apenas comendo esse incômodo sumiria, e estaria tudo resolvido. Então, quando o cuidador principal, seja a mãe ou qualquer outro humano, entrega esse alimento (o leite materno no seio ou ainda, uma mamadeira com fórmula láctea)  em conjunto com o acalento, com carinho, nosso cérebro conecta e entende a relação de prazer físico, da resolução da fome, com o afeto do outro. Essa relação se estabelece de maneiras diferentes em cada um e ao longo de toda nossa vida.

Ou seja, a relação do sujeito com o alimento vai além do ato de comer, mas também é composto por relações pessoais, sociais e culturais. A alimentação emocional é um conceito que se refere a tendência de comer em resposta às emoções, especialmente as negativas.

Há evidências de que a maioria das pessoas obesas, comem para resolver ou compensar problemas. Essa teoria chamada de Modelo Psicossomático da Obesidade afirma que indivíduos obesos, comem de maneira exagerada como compensação em situações de estresse, ansiedade, tristeza. 

Dietas de emagrecimento são prescritas em grande escala para tratar a obesidade ou o exagero alimentar. No entanto, aproximadamente 30% -35% do peso perdido, é recuperado um ano após o tratamento e 50% dos pacientes retornarão ao seu peso inicial no quinto ano após a perda de peso.

A “mentalidade da dieta” é muito discutida. Trata-se de um conceito onde todos devem realizar algum tipo de dieta, já que estão cuidando de seus corpos. Essas dietas trazem frustrações (pois são extremamente difíceis de seguir, com sacrifícios incluídos: fome, proibição de alimentos etc.), e influenciam os hábitos alimentares. O ciclo se inicia: restrição alimentar – frustrações – comer exagerado baseado nas emoções – compulsão alimentar – culpa ( re-ganho de peso) – início de uma nova restrição alimentar.

Pessoas que fazem dietas restritivas, tem um risco elevado de compulsão alimentar. A prevalência de compulsão alimentar varia de 20% a 50%, entre indivíduos obesos participantes de programa de redução de peso.

Assim a pergunta que fica é: a relação entre estresse emocional e compulsão alimentar é causa, ou consequência?

Desta forma, o cuidado dos profissionais da saúde com sujeitos que comem mais por emoções, até o ponto da compulsão alimentar, deve ser multidisciplinar e envolver uma escuta ativa. Precisamos de compaixão, empatia e cuidado, para que num momento como o que vivemos hoje, tenhamos mais acolhimentos do que demandas.

Referências bibliográficas

  • McEwen BS, Wingfield JC. The concept of allostasis in biology and biomedicine. Horm. and Behav. 2003; 43(1):2-15.
  • Raikkonen, K., Matthews, K. A., & Kuller, L. H. (2007). Depressive symptoms and stressful life events predict metabolic syndrome among middle-aged women: a comparison of World Health Organization, Adult Treatment Panel III, and International Diabetes Foundation definitions. Diabetes Care, 30(4), 872-877.
  • Zellner DA, Saito S, Gonzalez J. The effect of stress on men’s food selection. Appetite 2007; 49(3):696-699. 5. Oliver G, Wardle J. Perceived effects of stress on food choice. Physiol. Behav. 1999; 66(3):511-515
  • Zheng H, Lenard NR, Shin AC, Berthoud H-R. Appetite control and energy balance regulation in the modern world: reward-driven brain overrides repletion signals. Int. J. Obes. 2009; 33(Supl. 2):S8-S13.
  • Klein, M. (1952/1982). Algumas conclusões teóricas sobre a vida emocional do bebê. In M. Klein et al. Os progressos da psicanálise (pp. 216-229). Rio de Janeiro: Imago.
  • D. B. Sarwer, A. V. S. Green, M. L. Vetter, and T. A. Wadden, “Behavior therapy for obesity: where are we now?” Current Opinion in Endocrinology, Diabetes and Obesity, vol. 16, no. 5, pp.347–352,2009.
  • SAINSBURY, K. et al. Attribution of weight regain to emotional reasons amongst European adults with overweight and obesity who regained weight following a weight loss attempt. Eating and Weight Disorders, February, 2018
  • Wallis DJ, Hetherington MM. Emotions and eating. Self-reported and experimentally induced changes in food intake under stress. Appetite 2009; 52(2):355-362. 11. Oliver G, Wardle J, Gibson LE. Stress and food choice: a laboratory study. Psychosom. Med. 2000; 62(6):853-865

Comente